1.

Em Abril teve a tal greve de ônibus aqui no Rio. Só que eu, desavisada no início da manhã, parti pro ponto faltando meia hora para o início da minha prova. Cheguei lá e o lugar estava lotado de gente ― todos desavisados. No meio daquela coisa toda, acabei descobrindo uma menina que estudava no meu campus e ela me disse, apavorada, que já estava ali há mais de uma hora. Achei doidera alguém ficar esperando por um ônibus aquele tempo todo, mas enfim… Deus sabe o que faz.

E ai estava quase indo embora quando um fura-greve chegou, dirigindo com certa dificuldade aquele veículo abarrotado, cuspindo gente pela janela. A garota, que estava com um terço na mão, me convenceu a tentar pedir para a professora aplicar a prova pra mim. Deixamos o povão entrar e conseguimos ficar num nível remotamente parecido com o conforto antes da roleta.

Não deu dez minutos e eu já estava lembrando desse pouco conforto como uma época de ouro. De repente tinham umas quinze pessoas naquele espacinho e uma única janela soprando pouco vento. Lá pelas tantas, três senhoras nanicas entraram e se enfiaram entre a gente, como um carro compacto numa vaga apertada. Uma delas gritou, juro, como um brado de guerra: “EU VOU CHEGAR AO INCA!”

Como não poderia ser diferente, esta resolveu ficar ao meu lado e tossia de tempos em tempos. Aquilo estava me dando nervoso. Aquele bando de gente, o calor, a falta de vento, a mulher tossindo… Fiquei seriamente enjoada e ao invés do cara dirigir sem medo de ser feliz, não! Resolveu parar no ponto seguinte, mas a passageira não conseguiu entrar. Agarrada às barras do ônibus, ela impedia que o motorista arrancasse. Ficou naquele desce, não desce que não terminava até que uma menina berrou lá do fundo: “PUXA ELA PELAS PERNAS!”

E no meio disso tudo, vira a tal garota de terço na mão e me pergunta: “Qual é o seu Orkut?”



INCA: Instituto Nacional de Câncer
também postado em: http://naoeatoanao.blogspot.com

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Nota de uma Garota Sei lá

Durante muito tempo quis aqui sentar e aqui escrever coisas ótimas, incríveis – devo dizer inesquecíveis. Dessas que não passam despercebidas e são iluminadas de amarelo pelas canetas de papelaria. Quis crer que o poeta era de fato um fingidor – e ainda creio, creia-me. Contudo aprendi em tão pouco tempo que não é bem assim. As coisas chegam, as coisas fluem, a gente as vive, elas acontecem. Ou elas acontecem e a gente as vive. Não sei, só só que são assim. Simples assim.

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Editar. Renomear.

Escreve. Edita. Apaga. Troca palavra. Não ficou bom. Apaga.
Apaga. Apaga.
Exclui a linha inteira.
Esquece.
Fecha no xis. Se desejo salvar? Hesitação. Cancelar.

Às vezes me sinto tão anestesiada quanto às coisas que acontecem ao meu redor…

É isso!
(Enfim algo pequeno. Minha professora da sexta série ficaria orgulhosa.)

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Eu blogo, eu desabafo.

É impressionante como as coisas fluem entre as pessoas que nos cercam — ora tão leves e serenas, ora tão complexas e cheia de farpos.

Dia desses andava na rua quando me deparei com uma figura que fez parte da minha vida lá no meio da avenida do ano de dois mil e seis ou sete (ou ambos). Confesso que não foi uma das pessoas mais divertidas ou agradáveis que conheci, mas foi alguém importante para mim — ainda que eu viva me esquivando dos seus convites para aniversários, festas e por aí vai. Como disse, algumas coisas podem ser bem complexas.

O caso é que encontrei com ele. Nos cumprimentamos: aperto de mão e dois beijos no rosto, alternando as faces. O de sempre — minto, o que costumava ser o de sempre. Logo em seguida, ele me perguntou "E aí, tá pegando quem?", o qual respondi com "Nossa, o que aconteceu com o tudo bem??". Ele riu e me acusou de fugir da pergunta.

Não quero parecer indelicada, muito menos uma fugitiva de perguntas, a questão é que não vejo sentido nessa atitude. Por que devo falar de algo assim, e tão precocemente, com alguém que não vejo há, três ou quatro anos?

Tenho uma outra amiga com quem mal falo, pois sempre consigo prever nossas conversas. É algo mais ou menos neste caminho: eu digo oi, ela responde com outro oi, perguntamos se está tudo bem uma para a outra e ambas dizem que está tudo ótimo e, então, ela vem com E aí, pegando muito?. Mando um emoticon de sorriso discreto e ela se põe a contar as histórias dela, sem convites. Não duvido que sejam verdade, embora tenham sempre me parecido um tanto fantasiosas — flores demais, you know what I mean?

Na verdade, há uma competição entre as pessoas onde não há opção de 'não quero brincar'. É como se fosse algo bastante subentendido. Se eu digo que ganhei dois presentes de Natal, outro diz que ganhou quatro e este se torna o vencedor até que venha outro dizendo que ganhou mais que nós dois juntos.

É ridículo e é patético; e acontece com frequencia com quem vos fala.

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Sobre a vida e crustáceos

Sobre a vida e crustáceos

Morrer é o maior risco de viver. E tem vezes que pedimos pelo fim. Vi isso ontem. Sai do trabalho cedo e fui para o ponto de ônibus. Lá encontrei umas crianças que judiavam de uns caranguejos que eles arrumaram sabe Deus como, sabe-se lá pra quê e só posso supor onde.

Dentro de uma sacola plástica com água e areia, o bicho era sacolejado e se encontrava espremido — até que resolveram soltar o pobre, que logo abriu os “braços” e ameaçava dar um beliscão no primeiro palhaço que encontrasse. Não sei, mas ele me pareceu bastante mal humorado — e não lhe tirei a razão.

Curioso é que semana antes eu mesma estava fazendo teatro com um caranguejo-defunto(ou defunto-caranguejo), mas este era de um bom humor invejável e filosofava sobre o fato de que seria em breve consumido.

A morte do caranguejo é uma das mortes mais cruéis que há — se não a mais vil. Há quem bata na cabeça do sujeito (uma preparação para o ato em si, não sei), enfie facas em suas aberturas, o jogue dentro de uma panela cheia de água fervendo! É de morrer!

O que as crianças fizeram ontem foi hediondo. Quando o bichinho (jeito carinhoso de chamar, pois se tratava de um monstro) se livrou do saco, recebeu tantas chineladas que chegou a ficar tonto. Como se não bastasse, a todo ônibus que estacionava, um ou outro moleque colocava o caranguejo no degrau. Até que chegou o momento em que colocaram o sujeito dentro do ônibus e o motorista, desavisado, fechou as portas. Lá foram as crianças correndo avisar pro cara que tinha “um bicho enorme e perigoso lá trás”.

Depois de tantas aventuras, finalmente viram que ele estava ou muito mal ou já morto. E aí deu uma louca (sim, ainda mais intensa) entre o bando, abriram um pote de maionese e esparramaram o conteúdo no chão: de lá saíram vários mini crustáceos, correndo para todos os lados, como se tivessem assistido à cena de terror feita com o companheiro gigante. E se aquele gigantão não foi páreo aos moleques (e a moleca), que chance teriam eles? Desataram a correr e aí foi um escândalo — entre as crianças, entre as pessoas que esperavam pelo ônibus e, como já dito, entre os mini crustáceos.

Houve muitas chineladas, chutes que levaram corpos para o meio da avenida para serem massacrados. Dentre estes, estava o Gigantão que aguardava em paz à rodada de misericórdia. Uma pata, de dono desconhecido, já separada do corpo, se mexia lentamente perto do meio fio. Um show de horrores que terminou com vários corpos esmagados no asfalto. Houve um enjôo, uma revolta e uma vergonha no final.

Há um trecho em “Misto Quente”, livro escrito pelo Bukowski, em que uns moleques aparentemente arrumaram uma briga entre um buldogue e um gato. Tenham arrumado ou não, também não faziam esforço para evitar a situação. Nesta parte, a personagem conclui que o gato não lutava apenas contra o cachorrão, mas contra toda a humanidade.

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o poeta é um fingidor

enquanto pecorro esse caminho
estranho e tão só, distinto
me bate saudades de tempos tão recentes
daquela torrente mista de alegria e
loucura
em que era eu tão crente.

absorta em fantasioso mistério
respirando promessas, anseando momentos
tudo ficou para trás, por onde os carros
andam
e por onde acabo de passar, passeando.

ainda que o cheiro e som estejam íntimos
e que o toque ainda me encoste
que o indisfarçável tremor na sua voz
me fascine
ainda é passado — efusivo, delirante.

de ti não peço o amor
quando há o perdão e adeus
peço que não fiques triste com minha
ausência
que mais triste que amor não
correspondido
é amor escondido — eclipsado,
jamais alcançado.

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something in the way

Não muito antigamente, abria a janela do meu quarto e aquela brisa congelante me encontrava instantaneamente. Um som de algo pesado correndo se aproximava muito rapidamente até que surgia ofegante a minha frente. Costumava encostar meu nariz em seu focinho, afagar e puxar suas orelhas e lhe coçar o topo da cabeça. Sempre muito quente, tinha impulsos fortíssimos de passar meus braços por seu pescoço e encostar minha orelha aos seus pêlos.

And I can’t complain.

Um pouco antes desse tempo, em determinada ocasião, daquelas em que nos encontramos no meio de um turbilhão de acontecimentos e o amanhã é algo totalmente inesperado, saí já no meio da noite, a rua um deserto, com um pequeno ser de cor amarelada, que nada entendia. Lembro de ter corrido tanto, tanto, tanto. Um tanto que hoje não correria. Senti o mesmo vento gelado tentando me parar enquanto nós corríamos a toda, sem um destino definido. Depois fomos parando, de bocas abertas e o calor nos invadindo o corpo. Acho que sou uma pessoa de vento e faz tempo que não me sinto leve assim.

And then, unexpectedly, I think of you.

Hoje o casaco traz esse quente para a vida e nem um pestanejo se dá antes de vesti-lo. Durante toda semana o usei até para tentar dormir. Em meio de tantos momentos fitando o escuro do quarto e virando de um lado a outro, implorando por minutos de sono e paz nos meus sonhos, me encolhia buscando algum conforto em vão. Em puro vão. Minha cabeça era alfinetada a cada movimento e minhas costas estavam duras, tensas, ao toque dos meus dedos. Fechava os olhos e muito tempo parecia ter se passado, olhava o relógio e descobria que o ponteiro teimava em sair do lugar. Rezava pela hora de acordar logo e de voltar a dormir assim que fosse possível.

And then, I think of you — so far and yet so close to me.

Das conversas ao meu arredor que me acuavam, do medo do contato com outras pessoas, principalmente em lugares fechados, do não ter-me feito entender, das promessas que no íntimo sei que não se concretizarão, dos dias e das noites tensas, do refúgio inexistente, dessa falta de comunicação, dessa doença é que a repetição, desse tédio sempre tão presente, desse se preocupar com coisas pequenas e essas dores, desse comercial de si, essa piada tão manjada, do não acreditar, do não saber ser...

Honey, it’s for you.

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Texto de Escola

"Tudo começara com a licença médica. Não que ele ignorasse por completo o objeto tão presente pelas salas de estar de sua vida. Acontece que com tamanha correria cotidiana e chegando tão tarde em casa, a perspectiva de se jogar na cama era muito mais aconchegante que uma tela de TV.

A médica recomendara repouso total, nada de grandes esforços e receitara centenas de remédios. Para tanto, nada mais propício que o sofá e, mais propício ainda, que este esteja em frente à uma televisão.

No começo era quase como uma descoberta: uma série, um desenho animado, aquela novela sobre a qual dona Ivone tanto falava, tudo ali tão perto e ele nem desconfiava. No começo, ele logo dormia, anestesiado, meio torto, no sofá. Foi depois de tantas reclamações sobre costas que doiam, que ele resolvera levar o eletrodoméstico para o quarto.

Foi neste momento que a coisa desandou.

Antes ele se perdia por entre os canais, confundia programações, perdia sempre os começos, um horror. A partir dali, possuia todos na mente e entre um 'pli, plim' e outro, escorregava entre as emissoras — uma levava a outra e ele não podia mais evitar. Do programa de culinária, ia para os desenhos e de lá para o jornal e daí vinha mais algumas distrações: uma reprise, um filme bobo, a novela de crianças, antiga, a engraçada, o jornal, um outro drama. Já havia terminado o dia, o sol já se escondera, mas ali estava ele, fiel àquela luz televisiva — esta que antes brilhava tão intensamente que lhe cegava, agora passa sempre suave por suas retinas e lhe massageia a face. E mais: nunca o deixava só.

Hoje ele ainda lembra, com saudades, dos bons tempos da licença médica e, quando é possível, ainda acompanha o Vale a pena ver de novo. Diz ele que não ficara hipnotizado, nem nada, que tudo era bobagem, mas a verdade é que os bordões permanecem, os comerciais sabe de cor e seus horários são todos baseados na Rede Globo."

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BBB

Não sei a que devo o tópico, mas acredito eu que seja porque estou mais focada no mundo televisivo devido a faculdade e à licença médica. De qualquer forma, peguei-me a pensar sobre o quão triste deve ser viver no Big Brother — não ignoro que eles têm comida, ar condicionado e ainda quinze minutos de fama, mas ainda assim deve ter um Q de tristeza em ser tão (temporariamente) Global.

Durante não-sei-quantos-meses lá se fica trancado, naquele que se torna seu lar. Lar este cheio de pessoas desconhecidas, vindas de diversos lugares com o único objetivo de te tirar de cena em busca do prêmio maior e ainda sendo vigiado vinte e quatro horas por dia dependendo de mais gente que não te conhece para continuar sobrevivendo. É praticamente como dormir, comer, viver ao lado de cobras.

Claro que na vida real também é assim, com a diferença que se tem para onde correr e lá não. Aqui fora podemos pegar um ônibus e desaparecer um pouco, entrar em um bate-papo e conhecer alguém de outro lugar completamente diferente. Lá dentro nem uma dessas escapatórias sociais é possível ter. Argh.

E aí tudo se completa com a votação. É quase como dar um tiro em alguém: imagino que alguns tenham prazer em apontar, mirar e atirar. BUM. Quem mais tiros leva, vai para a berlinda junto com a outra persona non grata (ou 'os fortes', 'o votado por não ter opção' ou qualquer outro termo que gostam de usar). Quando alguém finalmente é eliminado (executado), vem o vazio deixado pela morte.

Assim como este post, deve ser muito deprimente.

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Titre inconnu — sans la créativité

De uns (bons) anos para cá, em todos os carnavais algo me acontece. É fato. Claro que não fico ansiosa, às vésperas da festa, a me corroer, tentando prever qual será a da vez.

Por exemplo, houve um ano em que eu estava excitadíssima, pois passaria o feriadão fora de casa — e aos catorze ou quinze anos isso era o que havia de bom (ainda é, na verdade). Na véspera, chovia horrores. Sempre a esperançosa, não tirei minhas roupas da mala. Logo depois o triste e inevitável, o que me fez ficar em casa de frente ao computador, ouvindo axé e afins que faziam minha janela tremer: a mãe da minha colega, que ia me hospedar, ligou dizendo que chovera tanto que a casa dela fora invadida pela água.

— O convite está de pé, mas não sei se ela se sentirá confortável... — ela havia dito pelo fone, sempre muito simpática.

Este ano não foi muito diferente, só que não tinha nada planejado: nenhuma viagem, nenhum bloco a perseguir. Pensei que fosse ficar estar livre de qualquer enfermidade (que também foi tema carnavalesco de outros tempos) por já ter ficado doente logo no início de fevereiro — mas, como diria um conhecido, “não há nada que não possa piorar”. E assim foi.

A saga começou quando estava sentindo dores no peito. Depois de oito horas sentada na emergência e quase congelando...

“Não tem cara de ser dengue. É virose.”
É importante dizer e até engraçado de constatar que no Rio, se alguém espirra, já desconfiam de dengue. Dipirona em mãos, fui para casa.

Dois dias depois, com minha garganta doendo e tendo que esperar seis horas...

“Infecção bacteriana.”
Dipirona e umas quatro cartelas de antibiótico em mãos, fui para casa.

E aí durante o carnaval, a tosse que não parava.

“Aaaaah, isso é alergia! Vou te passar uma injeção e um exame de sangue.”
E lá fui eu.

Depois entreguei o exame à outra médica, o ‘meu’ havia saído em uma emergência.

— Esquece alergia. Isso não é alergia. Isso é um vírus, você está com alguma virose. Sem dizer que está quase anêmica.

— E a tosse? — perguntei

— Não há nada que eu te passe que irá resolver.

Meu Deus!

— Agora... Preste bem atenção: se essa tosse continuar, é tuberculose. Você está com alguns sintomas.

— Todos os outros médicos disseram que meu pulmão está limpo.

— Aaaah, ele fica escondido. Se batermos um raio-x agora, não irá aparecer nada.

Saí de lá com Dipirona e com a tuberculose na cabeça (ou no pulmão, sei lá).

Na semana seguinte tirei umas chapas de raio-x e na segunda-feira fui à uma pneu-mo-lo-gis-ta. Contei todo o caso, como já estava cansada de contar. Ela olhou as chapas e concluiu.

Não é tuberculose e você está anêmica”

Oh, ótimo, mas o que era ela também não me disse. Receitou um catatau de remédios — nenhuma Dipirona, ao menos, graçasaDeus.

Na quarta estava de volta. Uma enfermeira estava atendendo.

“Pelos remédios parece que você está com pneumonia. Pelo que você me contou parece ser sinusite.”

Parece, parece, parece. No dia seguinte voltei. Uma “simpática” me atendeu. Pediu mais chapas e o resultado:

“Bem, você está com sinusite”

Oh, mais um diagnóstico para fazer lista. Gostaria de unir todos os seis médicos que me atenderam em uma única sala e falar: “Vai lá, diz na cara dele que não era alergia! Diz aí para ela que é virose e não bactéria! Quero ver, quero ver!”

Muito (mal) se diz sobre a qualidade do atendimento público. A verdade, acredito eu, é que no fundo o que falta é tempo. Todas as três vezes que esperei horas (e não é exagero) para ser atendida no UPA, não levei mais de sete minutos com o (a) doutor (a). O tempo, porém, seria suficiente (afinal, são turnos durante 24 horas) se houvessem médicos suficientes. Nunca deixei de ser atendida, mas uma boa injeção de paciência direto na veia se faz necessária. Eu tenho saúde para ir e vir, ainda posso esperar, mas há aqueles que não podem (e não devem), mas que ficam e aí acontecem essas tragédias vistas nos jornais.

É triste.

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Duas e Dezessete

Duas e Dezessete

Ontem, já à noite, ele anunciou ter encontrado um inimigo, desses que pareciam ter tomado anabolizante e que travava lutas por aí. "Não pensa, mata", mandei, como uma verdadeira tirana, sem dó, nem piedade. Ô serzinho nojento, desprovido de qualquer partícula socialmente aceitável. Morte, morte, morte.

Eis que o eliminador falhou em sua tarefa: pelo despreparo que o levou a distração e, consequentemente, a fuga do elemento — pois de certo era um macho.

"Se escondeu" justificou-se o matador e, conformado, voltou ao seu posto em descanso. Frustrante, mas nada surpreendente. Ele, em um ato insano, logo após a desistência, quis apagar as luzes.

"Perdeu a cabeça? Além de nos deixar desprotegidos, ainda nos banhará pela escuridão e dará a ele o crédito de se esconder e atacar sem que possamos nem mesmo ver?!"

Com o alerta, afastou a mão do interruptor e deitou-se, totalmente vencido, sob o colchão. Davi vitorioso sob Golias — mais uma vez. Tranquei-me, muito depois, em meu próprio refúgio e não sai de lá até que a luz do sol adentrasse pelas janelas e me permitisse o luxo da clareza por todo o ambiente. Passei o restante do dia a ponderar, imaginar, desejar que ele já estivesse fora. “Será que ele já se retirou? aproveitou a noite, redimiu-se e foi para outro lugar?"

Como pode um sujeitinho desses pensar que, simplesmente, pode chegar e se acomodar, se fazer em casa? Imaginei-me, sentindo arrepios, claro, não podendo ir ao banheiro pela sua presença; não me estirar no sofá por receio que ele surja e me afaste do sossego. Como posso dormir com a ameaça dele entrar no meu quarto e... Deus!

E aí, nesta turbulência, o localizo: bem em cima da MINHA mesa, onde me sento, onde como, onde falo, onde a tudo faço e ele bem ali, se achando dono da madeira, crente, crente que pode correr para lá e para cá. De repente me vi como Arturo, só que em vez de caranguejos, era com baratas que eu estava lidando; e à guisa de um massacre, algo limpo e discreto me bastava: um único golpe e ela (ele, pois de certo era um macho) estava morta ao chão.

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Bliss

Não sei bem se gosto de fim de ano. É sempre esse amontoado de gente se espremendo, fazendo compras e todo mundo te desejando feliz natal e tudo de bom —desejar por desejar. É essa coisa de ser solidário e essa chuva que não pára.

Sou cheia de comentários ácidos nessa época, não é por mal, é por tristeza; um incômodo angustiante. Bah. Passa, tudo passa.

Gosto mesmo é de meio de ano, depois que passa o verão, essas festas, essa obrigação de ser feliz e comparecer às festas. Meio de ano é bom, pois já se está de volta ao ritmo como o ritmo verdadeiramente é. Meio de ano é bom, pois é bom ficar romantizando as férias que ainda estão longe de vir. É bom ficar imaginando o que vai querer e o que vai fazer. Essa ilusão de futuro é boa. Ignorance is bliss.

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Forca Feeling

Forca Feeling
- Rebecca Albino


É melhor escrever logo enquanto a censura “permitir” ou pelo menos enquanto os “homi” não entram aqui e saiam apagando post afora. Trato aqui sobre o último assunto polêmico entre, nós, os internautas: a aprovação da lei elaborada pelo Senador Eduardo Azeredo. Com ela, Azeredo pretende eliminar da rede a pedofilia, mensagens de apoio ao racismo, proteger trabalhos acadêmicos e diminuir o fluxo de vírus.

Nem tudo são flores...

O problema é que, além de estarmos sob vigilância, causando já uma sensação estranha de dèjá vu, a lei foi escrita de uma forma tão ampla e tão subjetiva, que, no fundo, somos todos criminosos e, como tais, estamos sujeitos a anos de prisão (algumas penas são de dois anos). Até separarem o joio do trigo, já se foram muitos condenados.

Quando começo a dissertar sobre um comercial (ultimamente meu alvo preferido vem sendo a campanha, digamos, dançante de um banco), geralmente digo: “Não sei quem é pior: quem cria ou quem aprova.” Hoje não falo a respeito de um comercial, mas a frase se encaixa perfeitamente. Ora, minha gente, sejamos francos: de movimentos contra a Internet já temos os programas de televisão — julgo desnecessário citar um em particular, fã de carteirinha dessa prática, mas darei apenas uma dica, afinal, tem-se que tomar cuidado com o que se diz nas datas atuais: é exibido todo Domingo.

No mais (entrando aqui no modo revoltado), assim como cientistas que passam anos pesquisando, para um dia anunciarem que o chocolate trás uma boa sensação, parecem não saber que há o câncer para se descobrir a cura, será que o parlamento não tem nenhuma questão mais urgente para se discutir? Talvez uma roupa para lavar? Segue uma lista das primeiras sugestões que me ocorreram:

- Investimento nas ciências exatas, na cultura e na educação, em geral;
- Melhor distribuição de renda e geração de empregos;
- Investir na saúde, no planejamento familiar, no saneamento básico e na moradia;
- Melhorar a qualidade da segurança, na preparação de profissionais e na infra-estrutura;
- Conciliar a preservação do meio-ambiente e o avanço tecnológico;
- Etc.

O sentimento na prática


Esta semana, ao me cadastrar em um fórum, fui advertida a respeito de algumas regras impostas pelos moderadores para que meu passaporte para a comunidade fosse efetuado. Ótimo, prossegui apertando no OK, crente que seria mais um daqueles enormes textos que ninguém lê, mas diz que lê, aperta o OK e pronto. O que veio a seguir, porém, foram apenas algumas frases que me diziam para ter cuidado com o que digo, quem eu cito, o que quero dizer, etc. Tudo terminava com um “... será expulso”, que me aterrorizou, como no primeiro dia de aula quando uma professora muito séria e com cara de má diz que será inadmissível a conversa dentro de sala. Senti-me como o pobre bonequinho da forca: magra feito aqueles palitinhos, fraca como o grafite que risca o papel, temendo que uma letra mal escolhida resultasse em uma lança atravessada no meu pescoço., denunciando meu fim. Sinceramente, deixei a tela da última etapa de cadastro do fórum minimizada por muito tempo, pensando: “Aderir ou não aderir? Eis a questão...”


Leia:

“1984” – George Orwell;

Xô Censura! — procure pelos blogs participantes da campanha.

Assine:

Petição contra o Projeto de Cibercrimes



- O dia 19 de julho foi escolhido por representar o dia em que o jornal O Estado de São Paulo publicou receitas e poemas de Luiz de Camões no lugar das matérias censuradas no ano de 1972. -

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Como todos

Era uma vez um sujeito que, de muitas idéias que tinha, um dia resolveu se reinventar. Pegou uma parte dali, outra de lá. Disse que não mais ia ficar quieto esperando que os outros o percebesse — a partir daquela data seria diferente. Falaria com todos, os cumprimentaria e se alguém estranhasse, não se importava. Sua nova personalidade realmente não ligava para que os outros pensavam.

Até que um dia percebeu que não conseguiria ser desse jeito. Não conseguia disfarçar a dor que dava no peito quando o olhavam e riam, debochando. Pois, então, ele seria diferente.

E mais uma vez tentou...

Só se vestia de preto, fumava cigarros (sempre engasgando com a fumaça), um atrás do outro, mal falava (os fones nos ouvidos não lhe permitiam que a voz alheia lhe alcançasse). Passou a dormir na escola e impressionava quando tirava notas altas.

Mas logo se cansou. Se viu solitário, já que não falava com ninguém. Se sentia sujo enganando as pessoas quando dizia que não estudava em casa. Cuspia sempre que terminava de fumar.

Precisava mudar...

Até que lhe veio uma luz: resolveu ser ator. A cada dia uma nova personalidade. Nunca se cansava, as coisas nunca caiam na rotina. Um dia era pobre, apaixonado por uma rica; noutro, era rico e mau. Nunca chegou a ser galã, mas era sempre desejado, sempre concorrido, sempre o centro da história.

Até que um dia os holofotes o cegou, precisava fugir, precisava ser normal outra vez.

A partir daquele dia, ele começou a trabalhar (como todos), a ter amigos (como todos), a ver o final da novela como todos, a não sair por falta de dinheiro (como todos), a reclamar do governo (como todos), a... enfim, viver como todos.

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Eu tenho uma teoria: a do branco

Eu tenho uma teoria: a do branco

Faz dias que tento escrever alguma coisa, mas é tudo em vão. Abro o caderno ou o Word e nada sai; tirei o mp3 dos ouvidos para poder ouvir ou perceber nas pessoas algo interessante com a qual eu possa dividir com você; passo um bom tempo deixando o vento me descabelar enquanto penso e penso... Nada.

De repente mil idéias surgem, chego em casa animada, estalo os dedos, me ponho a digitar e, quando percebo, as letras “m”, “n” e “o” não estão em seus devidos lugares. Algumas palavras estão unidas, se recusando a se separar mesmo que eu espaque a barra de espaço. Ótimo — o teclado foi para o beleléu.

Mais uma vez me vejo desesperada, mas não vencida. Fiz vários esboços mentais de textos que alguma hora me poria a passar para o Blog — textos estes que iam de reflexões sobre comerciais da TV Globo que me deixam “deprimida” até o vexame que o ‘ex-capa-da-Caras-e-atual-capa-da-Quem-e-afins’ está passando e que já passou do ridículo. Foi aí que bolei minha teoria:

Dia desses, nos pensamentos que antecedem o 'cair no sono', percebi, finalmente, que não ter o que escrever é, na realidade, ter inúmeras coisas a se dizer e não saber se decidir sobre qual será o texto da vez.

Exemplificando de outra forma: recorte aquela roda das cores (das aulas de Física) com a qual Newton provou que a cor branca se forma a partir da presença de todas as cores e, agora, cole da seguinte maneira:

(Clique na figura para melhor vizualização) Ao girar esta roda, todos os assuntos se embaralham e não se tem nada para falar sobre. Se cada assunto fosse uma cor, daria branco.

Logo, a expressão ‘deu branco’ não é exatamente um vazio mental momentâneo e, sim, várias informações juntas tentando ganhar espaço ao mesmo tempo, gerando um engarrafamento intelectual.

Capisci? Comentários a fim de aperfeiçoar a idéia (ou apenas para opinar) serão muito bem vindos. Obrigada.


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Um ano, cara!

Um ano, cara!

Olha, certo dia, minha ex-professora de Português (Glorinha) pediu para que fizéssemos uma narração — era um exercício para casa. Assim o fiz e entreguei. Na aula seguinte, ela não apenas leu minha história de três páginas, como fez comentários extensos sobre o mesmo. A partir daquele dia descobri que tinha um talento — ela me convenceu disso. Logo... Bem, você pode culpá-la ou parabenizá-la. Eu, particularmente, agradeço. Não sei se estaria aqui comemorando um ano de blog se não fosse por ela.

Este não foi o primeiro blog que tive. Na realidade, tive tantos que não lembro do endereço ou nome de cada um, só sei que a maioria não sobreviveu por mais de três ou quatro meses. Quando o movimento dos blogueiros veio à tona, as pessoas levaram o nome “diário virtual” a sério demais e o que se lia era apenas um festival de blogs à la Seu Creysson e de Rebeldes sem Calça; o lema “Sou melhor do que as pessoas pensam, pior do que elas imaginam; críticas não me abalam; elogios não me iludem, sou o que sou e não o que falam; vivo o presente, penso no futuro e dane-se o passado!” era usado exaustivamente por meio de glitters rosas piscando. Por não ser popular e não ter uma vida badalada, abandonei a escrita e passei a me ocupar com o HTML para fazer templates.

O Algo do Tipo nasceu muito tempo depois dessa época, mais precisamente quando percebi que não podia continuar a escrever trechos em pedaços de papéis que logo se perdiam; além disso, a minha memória já estava ficando cheia de idéias que nunca eram passadas para o papel; foi aí que um blog para abrigar todo meu lixo mental se fez necessário — e daí a história do nome: como não sabia como definir o que viria pela frente, usei uma fala muito costumeira na minha vida ao contar um causo: algo do tipo.

Não sei como exatamente eu comecei a passar o endereço para as pessoas ‘darem uma olhada’. O que sei é que a primeira a comentar foi a Ana Rita, de São Paulo — talvez, no aniversário de segundo ano, eu faça uma entrevista com ela perguntando como foi ter acessado o blog pela primeira vez. A segunda coisa que também sei é que não pensava que teria um público fixo, aliás, nem pensava que fosse ter um público. A verdade é que não esperava nem que minha mãe fosse ler alguma coisa escrita aqui. Por isso, a cada um que aqui entrou, comentou ou leu (principalmente), muito obrigada. Cada um dos comentários deixados aqui ou no meu scrapbook, e-mail ou MSN colaboraram em muito para que não deixasse de escrever. Então... Bem, você pode se culpar ou se parabenizar. Eu, ao menos, digo: muito obrigada e rumo ao 2º ano!

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A Velha e o Galo

A Velha e o Galo.

Não sei o que as pessoas vêem em mim. Não sei mesmo. Dia desses, no mercado, enquanto enfrentava uma fila infinita para pesar alguma coisa, uma mulher chegou ao meu lado quase me atropelando e disse em um tom quase desesperado:

— Eu queria galo, mas só tem galinha! Você sabe onde tem galo? O moço disse que não tem mais nada!

Tive medo, sério. E mal tive tempo de responder, ela me fez cambalear quando saiu em direção ao balcão de frios. De certa forma me senti agradecida, o que eu falaria para aquela mulher atônita por causa de um galo? Então continuei naquela fila, abrindo espaço para um e outro que resolveu passar por onde eu estava mal pedindo licença. Mais uma vez pergunto: o que esse povo vê em mim? Só sei que só tinham duas pessoas na minha frente quando a fita da máquina resolveu acabar. Rolei os olhos. Olhei para os lados, bati com o pé diversas vezes contra o chão um tanto impaciente, talvez até irritando outra pessoa, quando vi a tal mulher vindo na minha direção outra vez. Rapidamente olhei para um lugar qualquer, tentando disfarçar. De nada adiantou. Meu perfume Gardenal nº 100 estava forte, a senhora se sentiu atraída e logo se postou perto do meu ombro, anunciando sua presença. Quando a olhei, notei que carregava uma embalagem feia, feia, feia de um congelado qualquer.

— Achei um frango — ela me contou, mostrando a embalagem —, o moço disse que não tinha mais galos, só galinhas, mas achei um frango!

— Ele mentiu para você, então — falei, mas duvido que ela tenha me ouvido. A mulher parecia mesmo transtornada com a história de galos, galinhas e frangos.

O olhar dela estava totalmente perdido entre as pessoas presentes enquanto murmurava sobre a conquista de ter achado um frango no meio de tantas galinhas e de ter provado para si que ela era capaz de encontrá-lo. Até que parou de súbito.

— Frango e galo é a mesma coisa?

Não sei se a pergunta foi direcionada para alguém em particular, ela parecia mesmo estar com os olhos focados em algo que ninguém mais via. Olhei para o moço que pesava as coisas e ele riu antes de falar com a Doida do Galo — como mais tarde a batizei.

— O galo acabou, senhora, mas deixe eu pesar isso pra você.

Ele então pesou e devolveu a sacola para ela que foi embora feliz — ou, vai saber, indignada pela falta de galos.

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Algo do tipo.

Semana passada, realizei um sonho de uma romântica escritora que a tudo romantiza: fui a um antiquário aqui perto e comprei uma máquina de escrever. Escolhi a mais capenga e o vendedor pareceu feliz em despachar logo aquele caco velho quando a envolveu num jornal (?), colocou dentro de várias grandes sacolas forradas por outras grandes sacolas e me entregou. Ia perguntar sobre garantia, mas achei que seria perda de tempo. Minha coluna meio torta e o suor brotando debaixo do meu cabelo, carreguei-a pela rua. Ô coisinha pesada, viu? Passei na papelaria para comprar tinta e papéis e canetas, várias delas. Disse à moça do balcão que não precisava de outra sacola. Segui adiante. Na esquina de casa uma padaria. Parei. Comprei um maço de “Um raro prazer”, pó de café, refrigerante, vodka e biscoitos. Dessa vez dividi o peso. Segui. A próxima e última parada seria apenas em casa.

Peguei minha máquina de escrever, capenga, tão velha quanto eu, e coloquei em cima da mesa de madeira. Ajeitei-a de modo imperfeito. Demorou um pouco até que eu pudesse atingir o torto-sutil perfeito, que era minha meta. Fui na cozinha e comecei a preparar o café. Enquanto ficava pronto, fui cuidar do resto. Peguei copos de geléia e extratos de tomate, acendi vários cigarros e os deixei queimando para que as cinzas caíssem dentro dos copos. Abri os blocos de papel, coloquei um ou outro na máquina e comecei a digitar coisas incoerentes, como esse texto. E daí tirava furiosamente a folha e fazia bolas de papel que jogava por ali; alguns na cesta de lixo, outros não. Fiz isso várias e várias vezes. Abri a garrafa de vodka e a empurrei com a ponta do dedo, propositalmente. O líquido escorreu pela madeira por uns segundos, quase um minuto — parece pouco, mas foi quase a garrafa inteira, filho — e depois fui lá, coloquei a garrafa em pé e coloquei folhas de papel por cima. A essa altura os cigarros eram apenas cinzas, amassei as guimbas contra o vidro e em seguida as deixei deitadas no fundo do copo. Achei que não era suficiente, definitivamente um maço não era o bastante.

Peguei o elevador e comecei a bater nas portas. “Oi, você é fumante? Não? Desculpe.”; “Oi, você é fumante? É? Você pode me dar caixas vazias? Espero sim, obrigado.” Quando achei que vários olhares confusos e que uma semana de comentários sobre minha pessoa já era bom, voltei ao meu apartamento com mais ou menos seis maços vazios. Coloquei dois em cima da mesa, mais três dentro do cesto e o resto no chão. Parecia bom. Voltei minha atenção para o café que não beberia. Peguei várias pequenas xícaras dentro do armário e dois pratos grandes. Espalhei farelo em um dos pratos, tive que esfregar um biscoito no outro para ter o maior número de farelo possível. Daí peguei o outro prato e coloquei por cima — nesse eu coloquei os biscoitos meio inteiros, meio defeituosos. Espalhei um pouco de farelo pela mesa também. Peguei a jarra de café e comecei a dividir o conteúdo entre as xícaras. Deixei-as lá, descansando, por uma hora ou um pouco mais. Derramei um pouco de café nos pratinhos, deixando-os meio manchados. Derramei também em cima da mesa e em alguns papéis. O cheiro da bebida impregnou o recinto.

Corri pela casa. Espalhei livros novos, livros antigos, dicionários de línguas que nem falava por tudo que era canto, principalmente na mesa e em volta dela. Fiz uma pequena pilha ao lado do sofá com um dos copo-cinzeros (?) para fazer companhia. Coloquei copo-cinzeros no banheiro também. Eu sei que é estranho. Espalhei jornais e discos de vinil também. Dei uma olhada e parecia bom. Só faltava mesmo uma coisa. Peguei mais copos de extrato de tomate e os virei de cabeça para baixo, deixando a base para cima. Acendi velas e as prendi no fundo dos copos. Deixei-as queimar por um bom tempo, algumas chegaram a ficar pela metade antes de apagá-las. As espalhei por lugares estratégicos. Coloquei duas na mesa, perto da máquina de escrever.

No final, peguei um copo de refrigerante e comi um biscoito enquanto contemplava o que tinha feito com meu apartamento. Pronto. Agora convenço qualquer um de que aqui mora uma escritora.

Qualquer um, menos eu.


Rebecca Albino
FEV/08


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Dos 18.

Dos 18.

Desde que criei este blog, venho postando quase que religiosamente todos os meses. Em alguns, posto logo nos primeiros dias; em outros, posto no limite do meu tempo, quase levando um tombo no pequeno espaço entre um mês e outro. O que me incomoda é o fato de não ter nenhum texto no mês de Julho. Então, numa noite calorenta dessas, enquanto fitava o teto do meu quarto, esbocei um texto na minha mente e dormi.

Em Julho aconteceram eventos importantes, o que me surpreende (adoro essa palavra, adoro a repetição da letra “e” nela, mas enfim...) ainda mais o fato de não ter escrito uma única linha. Por exemplo, tive férias em Julho! Nos últimos dias que antecedem o término das aulas, costumava entrar no segundo tempo e depois só ia lá marcar um X na letra “a” ou “d”, algumas “c” e outras, mas poucas vezes, na “b”.¹

Também foi em Julho (05/07, meu aniversário) a Season Finale da sétima temporada de C.S.I. pela TV a Cabo no Brasil — eu assisto com paridade pela CBS, baixando os episódios pela Internet. Mas isso é feio, muito feio! Reparou que todas as pessoas públicas só viram Tropa de Elite quando estreou no cinema? Fascinante essas pessoas!

E, claro, como deixei escapar acima, foi meu aniversário! Não vou dizer “finalmente, 18 anos” porque não vejo “finalmente” nenhum, não foi algo que eu esperava ansiosamente. E acho que, de certa forma, poucas pessoas hoje em dia esperam, imagino até que algumas queiram evitar a inevitável chegada dos 18.

A maioria das coisas que, teoricamente, só podem ser feitas aos 18 anos, geralmente é feita bem antes, o que corta qualquer ansiedade e sensação de “liberdade” que “os 18 anos” costumava oferecer, exemplo: beber e comprar bebidas; fumar e comprar cigarros; ir para boates; viajar sozinho; dirigir; namoro e sexo, etc.

[O “crescer” se perdeu, salvo apenas por alguns. As crianças e jovens em geral se atiram na busca da vida adulta rápido demais, não há mais tanta evolução; há mais um conjunto de fórmulas prontas que seguem cegamente, crendo que é gente. Já outros jovens são atirados na vida adulta precocemente, por diversos motivos.

Algumas meninas e alguns meninos não têm mais a aparência de serem meninas e meninos. Eles envelhecem, murcham ou se exibem excessivamente, se oferecendo sem nem saber que está e quando se dá conta, se é que se dão conta, já é muito tarde e não tem mais como voltar atrás. Perdeu-se.]

A parte mais comum de todos os aniversários é quando as pessoas te cumprimentam, “parabéns” pra lá, “feliz aniversário” para cá e por aí vai. Nos 18 anos a coisa é um pouco diferente. Parece que todos dizem a mesma coisa:

— Ihh, agora pode ser presa, hein!

— Eu tenho cara de trombadinha, por acaso?

É uma resposta meio mal humorada, eu sei, mas se você parar para pensar não faz sentido nenhum alguém te alertar sobre sistemas penitenciários, a não ser que sejas um pivete. Sem dizer que todo mundo dizendo a mesma coisa é um saco. Será que não têm outra piadinha mais infame?

Quem vos fala faz parte do grupo de precoces que fizeram a maior parte das coisas teoricamente proibidas para menores ainda sendo menor: já dirigi, já bebi e sempre tive Orkut. Pouca coisa mudou desde que fiz 18 — a não ser que agora posso falar: “quer ver minha identidade?” quando olham, desconfiados, para minha cara de criança quando quero comprar algo. Cresci numa casa onde ainda se diz que sem dinheiro próprio, não há liberdade. E com dinheiro próprio, mas ainda morando com mãe, também não há liberdade. Como estou dentro dessas condições, logo não tenho liberdade.


Rebecca Albino

05/01/2008


¹ N.A.: marcar “b” é elegante, “c” sempre parece a certa, quase ninguém coloca a resposta certa na “a” para não parece repentino demais e a “d” é atraente, pois o professor fez você ler aquilo tudo para a resposta estar lá no final. Não é a toa que eu faço prova de trás pra frente — a não ser pelo cabeçalho, claro.

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Então é Natal...

Então é Natal...

É desnecessário falar que o Natal é umas das festas mais importantes para a humanidade (ou grande parte dela). Afinal, é o dia em encontramos com a família e/ou amigos, temos a ceia (ou não), nos divertimos (ou não), alguns ganham presentes, outros vão à Missa; uns sabem que é uma festa cristã e é o dia em que se comemora o nascimento de Cristo, outros não. A introdução foi desnecessária, mas, entenda, eu preciso encher isso aqui com linhas escritas.

É impossível ser cem por cento “anti-natal”, pois se você parar para pensar não há como fugir e se tentar, passará a ser considerado a escória da sociedade (como assim alguém não deseja, mesmo entre os dentes, um “feliz natal”?). É fato, minha gente! Não há como ignorar o clima que os papai noéis, gorros vermelhos e músicas bonitinhas trazem. É uma data tão importante que até o Guanabara fecha durante todo o dia do feriado!¹

É a época dos especiais na televisão (momento: minha televisão permaneceu desligada demais ou não passou “Esqueceram de mim” ou “Esqueceram de mim: perdido em Nova York”?! Deus, é um clássico!) e das mensagens de impacto. Jornais e programas mostram crianças recebendo presente de pessoas, famosas ou não, felizes da vida. É a época do bom velhinho de shopping, tirando fotos caríssimas com meninos e meninas no colo. É tempo também de amigo oculto e confraternização com pessoas que durante todo o ano lhe é totalmente indiferente. Mas sabe como é esse clima natalino, né?

Ô épocazinha estressante também!

Se criança carente pede dinheiro durante todo o ano, imagina nessa época? Sendo que agora todo mundo fica de coração partido se não der pelo menos um real.

O trânsito fica mais infernal do que o costume, todos querem ir para o mesmo lugar.

Os ônibus ficam lotados de gente e bolsas enormes.

Praça de alimentação é uma massa de cabeças e só isso.

A loja tem que ser MUITO cara para estar transitável. Depois reclamam de falta de dinheiro!

Criança esperneando.

Presente de amigo oculto até R$ 10, neutro. Eu, pelo menos, defendo a idéia de que não existe presente neutro, ainda mais custando R$ 10.

No mercado as pessoas se reproduzem, e você sempre se esquece de comprar alguma coisa, o que gera a necessidade de voltar lá e enfrentar tudo de novo. Sério, todas as vezes que acontece isso comigo (não são poucas), eu vejo novas pessoas e o lugar está sempre lotado. SEMPRE.

É impressão minha ou há uma quantidade fora do normal de pessoas meio... doidas, por assim dizer, andando pelas ruas nessa época?

Gente + verão + liquidação. Desnecessário falar o resultado.

Fora qualquer coisa e, mesmo estando um pouco atrasada, FELIZ NATAL!

_____________________________
¹ Guanaraba é um super-mercado que nunca fecha! Sim, é exagero, mas só vi respeito total a dois feriados: Dia do Comércio e o Natal. Costumo falar que, se nada der certo, além de escritora, vou abrir uma filial do Guanabara.

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